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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Texto extraído da tese de doutorado de Priscila Fernanda Gonçalves Cardoso defendida na PUC/SP em 2006 sob o título – Havia uma ética no meio do camin

Capítulo I: Da criação dos valores à ética profissional – entendendo conceitos e sua relação com a vida
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

[...]
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

[...]
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Ferreira Gular – “Traduzir-se”

Iniciando nossa caminhada, na busca de encontrar respostas sobre o lugar da ética profissional na formação dos assistentes sociais, construiremos, neste capítulo, nossas referências sobre a ética profissional.

Falar de ética pressupõe compreender a relação do Eu com o Outro. No caso da ética profissional, podemos dizer que o Eu é o profissional, e o Outro, a sociedade em geral.

Para entendermos tal relação, necessitamos percorrer um desafiante e prazeroso caminho, ao qual convidamos o leitor a nos acompanhar: encontrarmo-nos com os valores que dão base à construção social da moral, que será, por sua vez, a base da reflexão da ética. Compreender, portanto, os conceitos de Valor, Moral e Ética, visto que estes estão completamente imbricados.

Mas por que podemos afirmar que estes são conceitos imbricados?

Vejamos a articulação entre tais conceitos, na esquema abaixo, na tentativa de demonstrar tal imbricamento, diante da concepção que aqui trabalharemos durante todo este capítulo.

Homem (Trabalho e relações sociais)  Valores  educação formal, cultura, entre outros  hábitos, costumes  legitimados socialmente  norma, dever (Moral)  Ética  capacidade humana.

O homem, entendido aqui como ser social1, é assim denominado justamente pela compreensão de que ele, embora um ser que pertence à natureza, não pode ser considerado apenas um ser natural.

É sim parte da natureza, mas diferencia-se desta como um ser que a transforma ao mesmo tempo em que se transforma, objetivando-se no mundo a partir de seu trabalho e de sua capacidade teleológica2.

“[...] Não se pode considerar o ser social independentemente do ser da natureza, como uma antítese que o exclui[...] Todavia, com igual clareza, a ontologia marxiana do ser social exclui a transposição simplista, materialista vulgar, das leis naturais para a sociedade, transposição que esteve em moda, por exemplo, na época do ‘darwinismo social’. As formas de objetividade do ser social se desenvolvem, à medida que surge e se explicita a práxis social, a partir do ser natural, para depois se tornarem cada vez mais declaradamente sociais. Esse desenvolvimento, porém, é um processo dialético, que começa com um salto, com a posição teleológica do trabalho, algo que não pode ter analogias na natureza[...] Com o ato da posição teleológica do trabalho, tem lugar o ser social. O processo histórico de sua explicitação, todavia, implica na importantíssima transformação do ser-em-si do ser social num ser-para-si e, por conseguinte, implica na superação tendencial das formas e dos conteúdos de ser meramente naturais em formas e conteúdos sociais mais puros, mais especificamente sociais.” (Lukács 1992:93)


O trabalho agregado a sua capacidade teleológica3, já vai nos mostrando de onde e como surgem os valores enquanto uma construção social, histórica e mutável, visto que podemos assim definir tal capacidade:

“Capacidade humana de projetar finalidades às ações; finalidades que contém uma intenção ideal e um conjunto de valores direcionado ao que se julga melhor em relação ao presente” (Barroco, 1999: 122);

“A construção, na consciência, do resultado provável de uma determinada ação.” (Lessa, 1999: 22).


Diferentemente do animal (esse sim, apenas um ser natural), o homem não age só por seu instinto, possui raciocínio e junto a ele a capacidade humana de projetar suas ações antes de realizá-las (o que pressupõe escolhas)4 e de transformar a natureza a partir de suas necessidades e suas capacidades humanas5, como a teleológica.
“Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho se lhe parece um resultado que já existia antes idealmente na imagem do trabalhador.” (Marx, 1968:202)


E é nessa relação com a natureza, ao transformá-la para suprir suas necessidades (imediatas ou mediatas), a partir do trabalho e de sua capacidade teleológica, que o homem cria suas relações com outros homens, ou seja, o trabalho não é somente uma mediação entre o homem e a natureza, mas também entre o homem e o homem.

É, a partir dele, que o homem se objetiva, satisfazendo suas necessidades, criando produtos, mas, ao mesmo tempo, criando e recriando sua própria existência e tornando possível a realização de sua “essência humana”6.

“Isto significa que ao construir o mundo objetivo o indivíduo também se constrói.[...] modifica a realidade, produzindo um novo objeto e, também modifica o indivíduo dotando-o de novos conhecimentos e habilidades.
[...] Em poucas palavras: todo ato de trabalho, sempre voltado para o atendimento de uma necessidade concreta, historicamente determinada, termina por remeter para muito além de si próprio. Suas conseqüências objetivas e subjetivas não se limitam à produção do objeto imediato, mais se estendem por toda a história da humanidade.” (Lessa, 1999:24)


Exemplifiquemos o processo do trabalho na sua transformação da natureza e do próprio homem, com uma situação simples e primitiva: o homem tem a necessidade de se alimentar, para tanto cria instrumentos e meios com a finalidade de obter seu alimento (aqui já utilizando sua capacidade teleológica), como, por exemplo, afiar com pedras a ponta de uma madeira transformando-a em uma “lança”. Com esta, vai à caça e traz um animal para ser cozido (imaginemos que já exista o fogo, também uma ação humana transformadora sobre a natureza).

Nessa pequena situação fictícia, podemos notar alguns dos conceitos apresentados anteriormente:

1). A capacidade teleológica7, no momento em que o homem projeta sua ação antes de realizá-la, para então poder saber o que fazer e como fazer, levando em consideração aquilo que julga como melhor naquela situação e contexto, escolhendo e elegendo alternativas de ação a partir dos valores que dá ao alimento, a forma de obtê-lo e utilizá-lo. Para realizar sua produção, portanto, o homem sempre realiza um processo de antecipação (ou prévia ideação), idealização daquilo que no real será produzido (o que por si só, não garante que o resultado dessa ação se dê conforme projetado, não tirando, porém, a importância de tal capacidade)8;

2). O trabalho9, transformando a natureza para suprir sua necessidade de se alimentar. Vejamos, pois, o trabalho será sempre a transformação de algo em algo a partir da ação humana, na qual a capacidade teleológica estará presente (mesmo que o interlocutor desta ação não a perceba conscientemente). E aqui a relação direta entre trabalho e capacidade teleológica: no ato do trabalho o homem sempre estará utilizando sua capacidade teleológica.

“No fim do processo de trabalho, surge um resultado que já estava inicialmente presente na idéia do trabalhador, que portanto já estava idealmente presente. Ele não realiza apenas uma modificação formal do elemento natural; realiza nesse elemento natural, ao mesmo tempo, a própria finalidade, por ele bem conhecida, finalidade que determina enquanto lei o modo da sua atuação e à qual ele tem de subordinar a sua vontade.” (Marx apud Lukács, 1992:92)


Além do uso de sua capacidade teleológica, para que o trabalho10 se realize, haverá sempre uma matéria-prima ou objeto sob qual a ação, depois de projetada, incidirá, no caso de nosso exemplo, a carne caçada e o próprio instrumento criado (a lança).

Para que a transformação seja possível, são utilizados meios e instrumentos para ação sob a matéria-prima, neste caso, o homem criou seu instrumento – a lança – e para tanto teve de utilizar meios: sua habilidade no manejo da pedra, uma técnica para criar a lança, uma forma para realizar a caça que vem do conhecimento que este foi adquirindo, a maneira de assar a carne, etc. Nota-se aqui outra capacidade humana – a criatividade.

Mas há ainda a ação em si, a caça. Essa, a atividade realizada, ou seja, seu trabalho, o que ele faz. A atividade é permeada pelo conhecimento, habilidades, visão de homem, mundo, sendo a ação transformadora em si.

E, por fim, temos um produto desta ação, ou seja, a matéria-prima foi transformada em quê a partir da ação humana? Nesse caso, em alimento para a comunidade em questão11.

É a partir do trabalho, portanto, que o homem pode se reconhecer como ser social, no uso de suas capacidades humanas, que o diferenciam da natureza, tais como a teleologia, a criatividade, a transformação, reconhecendo-se no produto de sua ação12;

3). As relações sociais13, ou seja, as relações que se criarão a partir do trabalho entre os homens desta comunidade. O que também criará valores.
“A existência social, todavia, é muito mais que o trabalho. O próprio trabalho é uma categoria social, ou seja, apenas pode existir como partícipe de um complexo composto, no mínimo, por ele, pela fala e pela sociabilidade (o conjunto das relações sociais). A relação dos homens com a natureza requer, com absoluta necessidade, a relação entre os homens. Por isso, além dos atos de trabalho, a vida social contém uma enorme variedade de atividades voltadas para atender às necessidades que brotam do desenvolvimento das relações dos homens entre si.” (Lessa 2000: 27)


Pois bem, todos deverão sair pra caçar? Todos terão as mesmas idéias? Todos têm as mesmas habilidades? Todos criariam os mesmos instrumentos e meios para a caça? Todos assariam a carne da mesma forma?
Assim, numa sociedade, inevitavelmente haverá a divisão deste trabalho. Toda sociedade sempre estará organizada de alguma maneira para produzir e reproduzir a vida material e intelectual. Para que todos existam e continuem a gerar a vida, as necessidades humanas devem ser supridas, e essas só são supridas a partir do trabalho e, a cada necessidade suprida, uma nova surgirá e novos meios e instrumentos necessitarão ser criados para o seu suprimento.

A forma de organização da sociedade para produzir e reproduzir sua existência determinará as relações sociais que ali existirão, pois criará e gerará a valorização diferenciada dos papéis assumidos nessa divisão do trabalho, bem como, apontará os tipos de valores que determinada sociedade terá diante das escolhas que realizou ao fazer tal divisão, e ainda gerará valores a partir da maneira como cada necessidade for suprida. Começamos a notar aqui, o como a criação dos valores está diretamente ligada ao modo de produção e as relações sociais.

“As maneiras como os indivíduos manifestam sua vida reflete exatamente o que eles são. O que eles são coincide, pois, com sua produção, isto é, tanto com o que eles produzem quanto com a maneira como produzem. O que os indivíduos são depende, portanto, das condições materiais da sua produção.” (Marx e Engels, 1989: 13)


Podemos afirmar, portanto, que é a atividade humana e as relações que o homem estabelece que criarão os valores. Esses são, portanto, estabelecidos a partir das relações sociais, que estão diretamente vinculadas a maneira como determinada sociedade se organiza para produzir e reproduzir sua vida, tendo assim, uma relação direta com as relações sociais.

Continua...

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